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Discurso de Abertura

Meus caros, leiam na íntegra o discurso de abertura proferido pelo Secretário-Geral Gabriel Pimenta.

“Caros integrantes da mesa, companheiros e colegas do curso de Relações Internacionais, senhores embaixadores.

O mundo, como não poderia deixar de ser posta sua condição de eterno teatro das contradições, mudou demais e não mudou quase nada nos últimos dez anos. Nosso país passou de Estado convalescente, vítima de um inexorável desmando econômico global, a peça-chave na necessária refundação do sistema financeiro mundial; uma ilha de estabilidade em meio à turbulência que abala fortemente a grande maioria dos Estados tidos como desenvolvidos. Era restrita a muito poucos a discussão sobre uma efetiva ascensão asiática ao cume do poder, e negligenciava-se a possibilidade do soerguimento de um ator importante cujo modelo de sociedade fugisse daquele canonizado no Ocidente. Hoje o Oriente avança com apetite pantagruélico por sobre toda a extensão planetária, dando provas incontestes de sua pujança militar, econômica e, porque não, civilizacional. O embate religioso, que parecia confinado a certos grotões, onde homens isolados do mundo lutariam em prol de exegeses equivocadas, passou por um recrudescimento, e hoje mobiliza os mais empenhados esforços físicos e intelectuais, justificando tanto uma torpe tentativa de isolamento cultural quanto uma igualmente extemporânea expansão imperial. Os meios de comunicação, já avançadíssimos uma década atrás, passaram por uma explosão nunca antes vista, matando o espaço em detrimento dum tempo cada vez mais rápido, e exigindo uma urgente reformulação dos conceitos de inclusão, democracia e ativismo político.

Por outro lado, encontramo-nos congelados em uma série de outros aspectos, muitos deles quintessenciais para a existência humana. Fronteiras físicas, não poucas definidas de modo completamente arbitrário, ainda vitimam povos, segregados ou unidos contra sua própria vontade; e definem os rumos da geopolítica, cujos efeitos se fazem sentir de modo cada vez mais contundente por sobre um número cada vez maior de pessoas. Existe ainda um pólo planetário de poder material e ideológico, detentor da capacidade de legitimar ou não atos e ideologias, gerando assim um deletério desequilíbrio nas perspectivas que ajudam a entender, e portanto construir, a realidade. Persiste, e lamentavelmente cresce, a massa de seres humanos marginalizados, uma vez que não detêm recursos econômicos mínimos, e são postos fora daquilo que é considerado sociedade pela torpe lógica do mercado. Ainda pior, vivem milhões de seres humanos vitimados pelo cruel autoritarismo em suas várias formas, alijados daquilo que é mais importante, seus direitos políticos e sociais.

Porém, existe algo que ao mesmo tempo é imutável e passa por constante renovação. O ser humano, gregário, mas também dotado de necessidades, vícios, virtudes e paixões individuais, necessita equacionar o dilema do convívio público, e para tal inventou a ação política, diferente a cada piscar de olhos, mas permanente ao longo da história. É por isso que estamos todos aqui esta noite. Porque dez anos atrás um grupo de jovens adultos, estudantes da amada e temida política, teve uma idéia simples, mas de avassaladora novidade. Eles resolveram estender seu interesse na tal política a um grupo ainda mais jovem, através de uma proposta inédita no país, na qual o conhecimento seria absorvido de modo compreensivo, partindo de seu princípio e terminando em seu fim, como o verdadeiro conhecimento deve ser feito.

As pessoas que abraçassem tal idéia deteriam efetivamente a capacidade de formular aquilo que lhes foi proposto entender. E isto é simplesmente brilhante, porque a partir do momento em que se transmite o interesse na política aos adolescentes, transmite-se também o fogo de Prometeu, e o vigor flamejante da educação aquece aqueles por ela tocada, movendo em frente o mundo, cada vez mais instruído, culto e inclusivo.

Há dez anos os modelos eram ainda um tipo novo de atividade no país, e ainda é razoável o número de pessoas que desconhecem suas propostas. Mas estava claro, para os fundadores e apoiadores de primeira hora do MINI-ONU, que havia naquele ideal de educação cívica e formação cidadã, uma vitalidade e frescor que certamente perdurariam. Transmitir e simular a realidade dos organismos internacionais, fóruns a princípio tão distantes da realidade dos estudantes secundaristas, era, e continua sendo, uma atividade visionária, imprescindível para os que sonham com um futuro. Se possível, um futuro melhor.

O sucesso do MINI-ONU em sua escala e tempo é prova cabal de que o interesse na vida política existe em todos, basta ser desperto, e que não são poucos aqueles que almejam um amanhã mais brilhante. Não à toa, por dez anos consecutivos, centenas de jovens adultos e adolescentes constroem este que é o maior modelo da América Latina, e saem do evento maiores, inebriados da fundamental política.

Portanto, façamos política. Façamos política intensamente nos próximos quatro dias, em negociações aguerridas, conquistas e concessões inimagináveis; discursos afiados, porém polidos. Adotemos ferrenhamente um nacionalismo postiço, sentindo nas veias o sangue tingido nas cores das bandeiras nacionais, mas sejamos também cônscios de que a humanidade é indivisível. Mesmo quando uma enormidade de pessoas é beneficiada, e isto se dá em prejuízo de apenas uma, este ganho é espúrio e abjeto. Como colocou Ulysses Guimarães, figura ilustre da República Brasileira, façamos política não com ódio, pois política não é função hepática. Política é sim filha da consciência, irmã do caráter, e hóspede do coração. Façamos política.

Declaro então aberto o MINI-ONU 10 Anos.”